Toc-toc… O paciente chega na 1ª consulta com a nutricionista com queixas, exames de sangue e uma série de certezas na palma da mão. Ele tem dormido mal? O relógio confirma que o sono profundo caiu 12% na semana. Resultado? A tentação de concluir que o cortisol está provavelmente alto e que o apetite pode estar alterado. Um pseudodiagnóstico feito antes mesmo da pessoa se sentar na cadeira do consultório.
Entendendo o cenário
Os wearables (tecla SAP: dispositivos vestíveis) ainda não entendem todos os contextos e minúcias da vida humana, u-hum. Eles não conseguem descobrir que o usuário trocou de emprego nos últimos dias e outras questões cotidianas. Isso é algo que apenas uma boa e velha conversa tête-à-tête é capaz de resolver.
O mercado global dos aparelhos medidores de saúde está crescendo em ritmo acelerado, e o território que eles abriram é mais amplo do que qualquer curva de glicose. A questão não é ensinar esses aparelhos a medir melhor, mas reconhecer que é necessário incluir na jogada contexto, história & escuta. A nutrição clínica contemporânea tem à disposição dados abundantes, mas, muitas vezes, de interpretação escassa.
Expectativa X Realidade
O monitor contínuo de glicose pode até indicar um pico glicêmico no meio de uma tarde de segunda-feira. Mas ele não é capaz de reconhecer se isso é fruto de um belo pedaço de bolo ou de uma reunião tensa pós-almoço. E a nutri sabe melhor do que um sensor que o estresse afeta a glicemia assim como uma dose de açúcar. Por isso, uma anamnese bem feita é fundamental pra separar essas duas causas.
O app de medição de sono pode, por exemplo, sugerir um ajuste de rotina alimentar baseado no ~padrão~ da semana. Mas isso pressupõe repetição, sem levar em conta a TPM que anuncia o início de mais um ciclo, o jet lag de uma viagem de trabalho e o surgimento de um projeto urgente de última hora.
Calma que nem tocamos no delicado assunto da acurácia dos wearables, que varia bastante de gadget pra gadget e de métrica pra métrica. Aí, cabe ao profissional da saúde distinguir o que é dado confiável do que é ruído tecnológico.
Nem tudo são flores
Chegou a hora de hablar y hablar sobre o outro lado da moeda, u-hum. O uso pode se tornar nocivo quando as medições passam a ocupar um lugar central na vida das pessoas. São as métricas competindo com a percepção humana.
“Sinto que estou super bem e descansado, mas meu relógio diz o contrário”. Quem nunca ouviu ou vivenciou isso? E de dado em dado, pode estar se iniciando uma dependência no uso de gadgets para decisões simples, uma irritabilidade com indicadores ruins e uma busca constante pelo melhor desempenho. Mas sabemos que a vida não se resume a um jogo de alta performance e superação de metas a qualquer custo.
Pra ficar de olho
Esse fenômeno que pode causar hipervigilância e ansiedade já tem nome e sobrenome: cybercondria, ou, em português bem claro, a preocupação excessiva com a saúde por conta de dados e informações fragmentadas. E, óbvio, a melhor maneira de combater esse comportamento é o nosso bom e velho conhecido equilíbrio.
Outro ponto de atenção é a implementação de inteligência artificial nos dispositivos e aplicativos. São os algoritmos sugerindo treinos, rotinas de sono, planos alimentares e até futuros diagnósticos. São os insights influenciando hábitos, comportamentos e ações.
E agora?
Nem todo número que aparece na tela do celular tem respaldo clínico para virar conduta. O movimento é irreversível. Sabemos. A questão é integrar essas informações ao raciocínio clínico. O wearable apenas mede. Quem interpreta, contextualiza e transforma dado em conduta é a nutri do outro lado da mesa.
E nessa quase disputa entre máquina e ser humano, a questão principal é a confiança. Aí cabe a você decidir quem quer que interprete a sua vida, a IA ou uma profissional especializada com consciência, valores e princípios.
Criamos um Canal de Transmissão no Instagram. Espie aqui!